Respeita as Mina

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sábado, 7 de setembro de 2013

A COLEÇÃO INVISÍVEL: Premiado filme baiano MOSTRA a crise do cacau da região...

Mariana Mendes

O diretor baiano-francês Bernard Attal escolheu bem quando decidiu fazer seu primeiro longa-metragem, A Coleção Invisível, inspirado em um conto homônimo do austríaco Stefan Zweig (1881-1942).

E acertou mais ainda quando convidou o ator Vladimir Brichta para ser o protagonista do filme. Uma história aparentemente simples, um momento histórico marcante, e um enredo que deixou de lado os clichês que normalmente são apresentados nas telas de cinema foi o bastante para garantir elogios e prêmios em festivais. A produção, que também tem o ator Valmor Chagas no elenco, em seu último papel, estreou nesta sexta-feira, 6, nas principais salas do país.

"Eu já vinha querendo fazer um filme sobre a Bahia e encontrei o conto de Stefan Zweig, que me deu a oportunidade de tratar esse tema através de um velho colecionador de arte. Acho que consegui casar esse e outros temas com a realidade da Bahia", contou Attal durante coletiva à imprensa, no pré-lançamento do filme na capital baiana.

A história original do conto se passa na Alemanha da década de 20, quando a Europa vivia efeitos de uma crise econômica após a Primeira Guerra Mundial. Mas, Attal, que escolheu a Bahia para morar desde 2004, resolveu trazer a história para uma realidade mais presente, especialmente para os baianos. Filmado em Itajuípe, no sul do Estado, o cenário escolhido foi a região cacaueira e sua decadência depois da praga da vassoura de bruxa.

Roteiro definido, Attal então saiu em busca dos atores. A escolha de Vladimir Brichta foi por acaso e quase que instantânea. O ator, que é conhecido por atuar com sucesso em seus trabalhos com humor, encenava em Salvador o espetáculo teatral Hamelin, drama do espanhol Juan Mayorga, adaptado por André Paes Leme. Attal viu a peça e fez o convite.

"Vi que ele tinha um prazo de atuação extremante grande. Não era só um ator cômico muito bom, mas tinha um potencial dramático muito forte. Acho que ele faz parte dessa geração de atores que sabem fazer um pouco de tudo. Então, resolvi propor o papel, ele leu o roteiro, aceitou e a história começou assim...", lembra o diretor, que não conhecia pessoalmente o ator.

O desafio de mostrar ao público uma outra face do seu trabalho foi recebido como um presente por Vladimir Brichta. Para o ator, o trabalho de Attal fez ele se ver no personagem, antes mesmo de começar as gravações. "Esse filme pra mim foi um presente. Primeiro porque é uma história linda. Quando eu li o roteiro imediatamente senti vontade de fazer o filme. Depois, eu vi dois curtas de Bernard e vi a forma delicada como ele conduzia seu trabalho. Aí, ao ler o roteiro, imaginei como ele poderia ser feito. Vi um diretor e um trabalho muito sensível", conta.

No longa, Brichta dá vida a Beto, um jovem acostumado a viver os prazeres da vida e que, ao passar por uma crise pessoal e financeira, resolve se passar por um curador de museu e viajar pela região cacaueira em busca de valiosas gravuras que poderiam saldar as dívidas de sua família. O que ele não esperava é que a procura por um velho colecionador de arte, o fazendeiro Samir, papel de Walmor Chagas, ia fazer ele mudar definitivamente sua visão de mundo.

Enquanto tenta se aproximar das gravuras do velho Samir, intervalos de tempo fazem Beto reencontrar-se com a história de sua própria família e recuperar sentimentos já esquecidos. Descobrir um segredo guardado no tempo pela família de Samir ajudou Beto em sua transformação pessoal.

Responsabilidade
Depois de muitas atuações cômicas, Brichta entende a importância e a dimensão do seu personagem. "Esse filme, com certeza, é um diferencial muito grande na minha carreira. Ele traz uma responsabilidade muito grande, mas é a do tipo que você gosta de ter.", diz o ator que, pela primeira vez, faz um protagonista dramático no cinema.

Apesar de já ter atuado em espetáculos dramáticos no teatro, Vladimir Brichta estreou na televisão em 2001, já com traços que lhe renderiam destaque em papeis cômicos. Depois disso, convites, em sua maioria voltados ao humor, foram surgindo e o ator foi construindo sua carreira.

"As melhores oportunidades que surgiram na época foram em humor. Aí comecei a exercitar mais esse lado, mas nunca fui um ator só cômico. Adoro fazer humor, mas não foi uma escolha. Com os papeis, isso foi se tornando muito forte. A televisão tem um poder incrível e as pessoas passaram a me reconhecer como um ator cômico, mas confesso que já estava sentindo falta de fazer um drama.", diz Brichta.

Ter crescido na Bahia também ajudou Brichta a aceitar o papel. "Saber que a história seria passada aqui me incentivou muito. Eu entendia essa história. Eu conhecia isso aqui, um pouco em mim, um pouco nas pessoas com quem convivi aqui. O retrato do sul da Bahia, que eu conheço bem, também me interessava bastante", diz.

Walmor Chagas
A presença de ator, diretor e produtor Walmor Chagas como parte do elenco também foi de grande importância para o filme. A Coleção Invisível foi o último longa do ator que morreu em 18 de janeiro deste ano, aos 82 anos.

Walmor vivia em um sítio no interior de São Paulo. Foi lá que ele recebeu o convite de Bernard Attal para fazer parte da trama. Sua atuação lhe rendeu, postumamente, o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado, em agosto deste ano. A coleção invisível ganhou mais dois prêmios no festival.

Bernard Attal contou que ao convidar Walmor Chagas, ele se queixou de que gostaria de ter feito mais cinema ao longo da carreira. "Disse que não fez tanto quanto queria". A presença do ator foi de grande importância para o diretor. "Ele era muito exigente com o roteiro e com os personagens. Mas foi de uma generosidade incrível. Ele aceitou ensaiar. Um ator como ele não precisava ensaiar, mas era importante para mim, por ser meu primeiro filme, e para os outros atores. Eu queria criar uma relação entre eles. E ele aceitou.", conta Attal.

O talento e o perfeccionismo de Walmor era uma influência para os outros integrantes do elenco. "O grande ator quer fazer seus parceiros ainda melhor. Todos são muito bons, mas queriam ser melhores para Walmor. Ele contagiava. Ele fazia os outros pensarem "quero ser tão presente na cena, quanto ele é"", diz.

A sensação é confirmada por Vladimir Brichta: "A atuação dele é fabulosa. Ele sempre estava querendo fazer algo melhor. Questionando se podia ficar melhor. Imagina isso vindo do Walmor? Com isso, todos queriam fazer o melhor também. Fiquei feliz e honrado quando soube que ele faria o filme", diz.

Além de Brichta e Walmor Chagas, o longa também conta com Ludmila Rosa (Saada), Clarisse Abujamra (Clara), Conceição Senna (Iolanda), Frank Menezes (Néemias) e Wesley Macedo (Wesley) nas principais cenas.

Desde que começou a ser divulgado, A Coleção Invisível ganhou o prêmio de melhor filme do Festival de Gramado, pelo júri popular, e arrebatou os Kikitos de melhor atriz coadjuvante, com Clarisse Abujamra, e melhor ator coadjuvante, com Walmor Chagas. O longa também recebeu o Prêmio de Melhor Filme no Fest-In de Lisboa. 

Assista o trailer oficial, abaixo:

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