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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Viagem de Papa ao Brasil é tentativa histórica de reformar a Igreja Católica

Não foi por acaso que Roma escolheu o Rio de Janeiro para celebrar a Jornada Mundial da Juventude. Mesmo antes da eleição do papa Francisco, a Igreja já estava preocupada com a crise interna da instituição, a queda das vocações e a diminuição do número de católicos no mundo.

Francisco foi eleito para pôr a casa em ordem e reconquistar os corações perdidos dos fiéis. Mas não há reconquista que não passe pela América Latina. Basta olhar para um mapa-mundi religioso para constatar que a região contem mais de 40% dos que se declaram católicos no Universo e que o Brasil é a maior potencia católica do planeta com mais de 160 milhões de fiéis. Mas é também no Brasil que este poderio da Igreja está mais ameaçado.

As estatísticas são claras e duras: os crentes da nebulosa evangélica e pentecostal vem aumentando de maneira exponencial, de tal modo que o catolicismo tem chances de se tornar minoritário nas próximas duas décadas.

O Rio é um microcosmo dos desafios que o Vaticano tem de enfrentar. Na Cidade Maravilhosa as Igrejas evangélicas já são maioria. Elas dão abrigo a uma imensa população desgarrada, sofrida e fragmentada pela violência da explosão urbana e a ausência do Estado e suas leis.

Um povo sem segurança e sem garantias. Famílias destruídas, instituições carentes. Do caos desta urbanização selvagem nasceu o “indivíduo”, solto, sem referências sociais, cuja sobrevivência depende da sua capacidade de iniciativa própria. Cada um por si e Deus por todos.

Na última década, a nova Classe C mergulhou na sociedade de consumo e cada um quer participar da festa. Pela primeira vez o espírito do capitalismo e do sucesso individual chegou às populações mais pobres do país. Tudo isso é benção de Deus para os movimentos evangélicos que trabalham numa relação direta com cada pessoa, exaltando as emoções. Para os crentes, o Paraíso é aqui e agora.

O sucesso econômico é uma manifestação direta e individual da graça divina. Melhorar de vida, trabalhar duro e ganhar dinheiro são valores que devem ser cultivados. A responsabilidade individual é promovida como regra central de comportamento. Nas assembléias de crentes a confissão é pública e o pecador assume seus pecados perante os outros e perante a Deus, sem intermediários.

A Igreja católica tem as maiores dificuldades em se adaptar a este novo mundo. O aparelho católico construiu sua força e seu poder como um “corpo intermediário” entre Deus e os homens. No seu relacionamento com o divino, o católico tem de passar necessariamente pela mediação do padre, das ordens religiosas, de toda a pesada estrutura eclesiástica. Apesar das inovações do Concílio Vaticano Segundo, a liturgia católica ainda está longe de ser “participativa”.

A confissão segredada a um sacerdote, que ostenta o poder de conceder a absolvição, retira a responsabilidade e a culpa individual do pecador para reintegrá-las no corpo coletivo da Igreja. Uma Igreja que detêm a chave do Paraíso. Que não é deste mundo.

Ora, tudo isto era possível e aceito quando a sociedade ainda era composta de redes familiares e grupos sociais estáveis, onde não havia quase “indivíduos” mas “pessoas” controladas coletivamente. Na verdade, a viagem do papa Francisco ao Brasil é o primeiro grande ato público da hierarquia católica romana anunciando uma nova tentativa histórica de reformar a Igreja.

Será difícil reconquistar espaço perdido sem uma reforma tão radical quanto aquela lançada pelo Concílio de Trento, no século XVI, para enfrentar a ameaça do protestantismo de Lutero e Calvino. Os jesuítas foram a ponta de lança do catolicismo tridentino que exaltava uma Igreja menos arrogante, mais acética, cultivando a beleza dos locais de culto e a emoção dos fiéis, privilegiando o diálogo com os mais humildes e se empenhando numa verdadeira campanha de evangelização no mundo inteiro.

Não é à toa que o novo Papa seja um jesuíta e que tenha escolhido o nome Francisco. Francisco de Assis, claro, o primeiro santo católico a criticar a ostentação de riquezas por parte da Igreja e a pregar uma religião voltada para os pobres e a natureza. Mas também Francisco Xavier, o santo jesuíta que foi evangelizar a China.

Não vai ser fácil transformar o aparelho católico num exército de evangelizadores estabelecendo relações diretas e pessoais com a comunidade dos fiéis, presente de maneira permanente em todos os recantos onde as pessoas vivem.

Hoje, movimentos carismáticos católicos ou figuras evangelizadoras “heterodoxas”, como o padre Marcelo Rossi, começam a competir com as Igrejas evangélicas. Só que nenhum movimento católico dará conta do recado sem uma profunda transformação dos hábitos deletérios da Cúria Romana.

O Papa Francisco ainda tem muito trabalho pela frente e o catolicismo ainda está longe de poder responder à ânsia religiosa dos indivíduos modernos que querem o Paraíso na Terra. E para já.
(Alfredo Valladão: rfi Português)

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