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sábado, 12 de novembro de 2016

Estudante de Valença é FINALISTA da Olimpíada de Língua Portuguesa 2016

Foram conhecidos nesta quinta-feira (11/11) os 38 finalistas do gênero Crônica da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP) Escrevendo o Futuro. Entre eles está Isabela Costa Sousa, estudante da Escola Municipal Dario Galvão. A cerimônia de premiação foi realizada em Porto Alegre (RS) e reuniu 125 estudantes semifinalistas vindos de todo o País. Isabela escreveu a crônica “Com olhos abertos”, orientada pela professora Diene de Farias Couto da Silva.

O gênero Crônica foi trabalhado por alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e do 1º ano do Ensino Médio da rede pública. Na premiação final, no próximo dia 06 de dezembro, em Brasília, serão revelados os cinco ganhadores de cada categoria (Crônica, Artigo de Opinião, Memórias Literárias e Poema). Participarão do evento de premiação e da festa final os professores e respectivos alunos, um representante legal do aluno finalista e o diretor da escola à qual o aluno e professor são vinculados. 

O Programa objetiva aprimorar a didática dos docentes de Língua Portuguesa para desenvolver competências de escrita em seus alunos e contribuir com a melhoria do ensino público. É realizado pela Fundação Itaú Social e Ministério da Educação (MEC), com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

A 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro recebeu mais de 170 mil inscrições e teve a adesão de todos os estados brasileiros, totalizando 4.874 municípios. O tema deste ano é “O lugar onde vivo”, que propicia aos alunos estreitar vínculos com a comunidade e aprofundar o conhecimento sobre a realidade, contribuindo para o desenvolvimento de sua cidadania.

Além da valenciana Isabela, mais uma baiana, a estudante Rayssa Martins Ribeiro, do Colégio Doutor Julival Rebouças, de Mutuípe, foi selecionada para a final com a crônica “Quem Sou?”, escrito sob a orientação da professora Maria de Fátima Barreto Almeida.

“Iniciamos as oficinas da OLP em março. Isabela, desde o início, se interessou e participou efetivamente de todos os trabalhos. Acreditou que seria possível, fez e refez várias crônicas, seguindo todas as orientações e estudando sobre o assunto, até adquirir a maturidade que apresenta na sua crônica final, que foi a vencedora”, destaca a professora Diene de Farias, acrescentando que o percurso até aqui foi longo, mas que “valeu muito a pena”.

Leia abaixo a Crônica de Isabela Costa Sousa, finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro:

COM OS OLHOS ABERTOS
Era uma manhã de sexta-feira, umas 7h, a cama quentinha, o ventilador em minha direção e o canto dos pássaros vindo do quintal, como de costume nas manhãs de sol. Ali estava eu, aos roncos, em um sono gostoso, até sair da cama com um só pulo, assustada com os “berros” do despertador, vindos do celular ao lado do travesseiro. Lembrei-me da pesquisa de campo para a OLP que iria acontecer naquela manhã. A professora, minhas colegas e eu iríamos à Feira Livre, no Centro de Valença-BA, procurar fatos e ideias para nossas crônicas. Em poucos minutos, me aprontei, peguei meu café e fui tomá-lo na sala, assistindo TV, como faço todos os dias. Ao me sentar no sofá, fixei o olhar na televisão, quando estava sendo citada uma frase exposta em um posto de gasolina: “Não fale da crise… trabalhe!”. Não dei atenção ao fato, mudei de canal, e me dei conta do horário. Corri à escola, ao encontro do pessoal, para seguirmos em nossa busca.

Já a caminho, meus olhos prontos para flagrar qualquer cena, um mínimo detalhe que pudesse ser transformado em minha melhor crônica e, não sei porque, me dei conta de que a frase ouvida no noticiário não me saía da cabeça. Chegando à feira, de imediato chamamos a atenção das pessoas, claro, não é comum aparecer ali um grupo de alunas concentradas, olhos esbugalhados para observar tudo, caneta e caderno nas mãos. Enquanto caminhávamos juntas, o fiscal se aproximou, expressando curiosidade, e perguntou: “Precisam de ajuda?”. A professora explicou que se tratava de um trabalho escolar e agradeceu a atenção.

O som ininterrupto das buzinas dos carros no entorno da feira, as frutas e legumes expostos nas bancadas, em lonas estendidas no chão, nas carrocerias dos carros compunham o ambiente. O cheiro intenso da tangerina, milho verde para todos os lados, amendoim, laranja, aipim, quiçare, genipapo, pimenta cumari e malagueta etc., tantas cores, sabores, perfumes, quase desviaram minha atenção.

Ao nos separamos, me deparei com cenas que até então eram insignificantes para mim: um movimento contínuo, pessoas indo e vindo, comprando, vendendo, barganhando, trabalhando sem parar, homens carregando sacos enormes de farinha de mandioca torrada e ainda quentinha, exalando um aroma gostoso, enquanto o suor escorria pelas costas nuas de alguns, ou ensopava as camisas de outros. Eram visíveis em muitos as marcas impressas pela pobreza, nas vestes amarrotadas, nos dentes faltos, escurecidos ou estragados, na necessidade de trabalhar dos garotos com seus carrinhos de mão. A pele manchada e as rugas profundas dos agricultores que vinham de suas roças para vender seus produtos fresquinhos revelavam a dureza do trabalho realizado sob sol e chuva, trabalhadores que, por várias razões, não tiveram oportunidade de estudar ou trabalhar com melhores condições e cuidados pessoais. Contudo, o sentimento que impregnava o ambiente era a alegria expressa generosamente no sorriso abundante daqueles trabalhadores que se empenhavam em conquistar os clientes e garantir o sustento da família, além de fazer um bem à comunidade valenciana, é claro.

Ao observar tudo aquilo, de súbito, me lembrei das palavras que tão pouco me importaram antes: “Não fale da crise… trabalhe!”, e uma chuva de reflexões inundou minha mente. Aquelas pessoas trabalham tanto e, muitas vezes, não são valorizadas como deveriam. Ainda assim, não se via em seus rostos qualquer sinal de vitimização ou atitudes de desânimo, ao contrário, a vida vibrava como uma dádiva, como uma celebração por poder viver um dia após o outro, com disposição, resignação e gratidão, pois, apesar das muitas dificuldades, sabem o valor do trabalho honesto, que lhes garante o sono tranquilo e a paz na consciência.

De fato, já fui à feira inúmeras vezes, mas, naquele dia, vi, diante de mim, um espetáculo enigmático, que sempre esteve em cartaz, mas que, até então, eu não havia aberto as cortinas dos meus olhos para contemplar e aprender a ver mais de perto aqueles que não deixam o espetáculo parar, que, além de trabalhadores, são pessoas, com suas dores, suas histórias, seus encantos. Para ver, basta um minuto de conversa, um olhar atento, um coração aberto.
A estudante finalista Isabela Costa Sousa

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