Respeita as Mina

Respeita as Mina

sexta-feira, 8 de março de 2019

Rio de Janeiro vai receber a maior coleção de arte iorubá fora da África...

O Rio de Janeiro vai receber a maior coleção de arte iorubá fora da África. Serão centenas de peças, em processo de escolha e catalogação, que chegarão a partir de agosto. Os artefatos milenares devem ser exibidos em um espaço sem correspondente no mundo: a Casa de Herança Oduduwa, um local para exposições, aulas de língua iorubá, centro de estudos e um teatro, num elo permanente de comunicação e intercâmbio entre o Brasil e o povo iorubá. Uma forma de aproximar as culturas e auxiliar o povo brasileiro a conhecer melhor suas origens, heranças, histórias e até suas feições.

A vinda desse tesouro histórico, religioso e cultural é um esforço pessoal do rei de Ifé, Ojaja II, de 44 anos, a maior autoridade tradicional e religiosa do povo iorubá, que originariamente habitava o Reino de Ketu e o Império do Oyó, áreas atualmente do Benin e da Nigéria. Há ainda um grande número de iorubás vivendo no Togo e em Serra Leoa, além de, fora da África, em Cuba, na República Dominicana e no Brasil. O desejo do rei nasce de uma coincidência propiciada pelo fato de o povo brasileiro desconhecer seus antepassados africanos.

Em dezembro de 2015, Adeyeye Enitan Babatunde Ogunwusi, um empresário então com 41 anos, tornou-se o rei de Ifé (Ooni de Efé, em iorubá). O antecessor não era o pai dele, porque o trono não é hereditário. O rei é escolhido entre integrantes das seis famílias reais da cidade. Mais de 50 iorubás pleitearam a honraria. Feita a seleção pelo Conselho Real, a cerimônia de entronização foi transmitida ao vivo por emissoras de tevê da Nigéria e do Benin para cerca de 40 milhões de súditos.

Dois anos depois, o rei iniciou uma campanha para agregar os iorubás espalhados pelo mundo. Um diretor de tevê teve a ideia de pedir que mandassem saudações gravadas pelo celular. Ao ver a mensagem que chegou do Brasil, o rei quase pulou da cadeira. Era impressionante a semelhança entre o seu próprio rosto e o cenário escolhido para a gravação: o Monumento a Zumbi dos Palmares, no canteiro central da Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro.

Na paisagem carioca desde 1986, a identidade da máscara de 3 metros de altura e 800 quilos de bronze é misteriosa. Na época, o jornal O Globo deixava claro que não era um busto do homenageado: “A escultura é réplica de uma cabeça nigeriana esculpida entre os séculos XI e XII. Descoberta em 1938, ela hoje está no British Museum de Londres”. Em texto publicado no livro A Cidade Vaidosa, de 1999, a historiadora e pós-doutora Mariza de Carvalho Soares esmiúça vários aspectos da criação e instalação desse monumento, mas também não traz a identificação do dono do rosto.

Tudo indica que nem sequer o secretário de Cultura do Rio na época da inauguração, o antropólogo Darcy Ribeiro, sabia exatamente de quem se tratava. Em 1995, nos 300 anos da morte de Zumbi, ele declarou à Revista do Senado Federal: “Um dos gostos maiores que eu me dei na vida foi erigir no Rio o Monumento a Zumbi. Belíssimo, porque reproduz, muito ampliada, uma cabeça de bronze do Benim. Não há quem olhe para ele e não se espante com a beleza negra que expressa”. Em outras ocasiões, Darcy fez ilações sobre o fato de a máscara “voar” sobre a estrutura de alvenaria, simbolizando a decapitação de Zumbi.

Tanta beleza e força fez com que o próprio rei de Ifé quisesse ver a escultura de perto. Em junho do ano passado, ele esteve no Brasil, acompanhado de outros reis e rainhas africanos, para uma série de encontros no Rio de Janeiro e em Salvador. A historiadora Carolina Maíra Morais (que mandou o vídeo do marido para a coroação em 2017 e prepara um documentário sobre a saga da cabeça de bronze) fez parte da comitiva, transformou-se em adida cultural do Ooni de Ifé no Brasil e testemunhou a alegria de todos ao “reconhecer” os traços do Rei na cabeça de bronze do Monumento a Zumbi. “Eles se sentiram em casa, em solo iorubá”, diz a historiadora. “Foi um momento de alegria. Não havia dúvida para ninguém ali que aquele era o rosto de Oduduwa”.

Na tradição iorubá, Oduduwa é o Senhor da Criação, o Pai de Todos. Para os seguidores de vários matizes das religiões de matriz africana, o rei de Ifé é o “Sentinela do Trono de Oduduwa” e tem a mesma importância que o papa tem para os católicos. Segundo a tradição, o rei descende diretamente de Oduduwa, deus do panteão iorubá, reencarnação de outras divindades.

Grande parte dos escravos trazidos ao Brasil Colônia ou no período imperial era iorubá – também chamados de nagôs. A mitologia que originou o candomblé, a umbanda e outras religiões afro-brasileiras tem muita influência nagô, bem como o samba, nascido nas casas de senhoras do século XIX que mantiveram os cantos e os batuques de seus antepassados.

Logo depois de visitar o monumento (Ori Olokun, em iorubá), o rei de Ifé consultou seus guias espirituais e recebeu a ordem de mandar para o Brasil imagens e peças originais do acervo milenar da cidade sagrada – e não cópias ou reproduções. São os próprios orixás tentando reforçar a identidade afro-brasileira e fazer com que conheçamos a história da nossa história. E também com que Oduduwa e Zumbi dos Palmares sejam cada vez mais conhecidos e reconhecidos pelo povo brasileiro, seus diretos descendentes, inclusive nas feições.
(Carta Capital - Eduardo Castro)

Nenhum comentário:

Postar um comentário