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sábado, 23 de junho de 2012

RIO+20 - Cúpula repete promessas e adia as ações para 2015

Ao adiar medidas que cientistas consideram urgentes,
o evento não aponta para decisões imediatas

A Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável terminou como começara: num tom melancólico e sem surpresas. A Rio+20 fica marcada pela distância entre a expectativa da sociedade civil e o que os governos e diplomatas foram capazes de produzir em 12 dias de diálogo. O documento final da conferência, intitulado de O Futuro que Queremos - e apelidado de O Futuro que Não Queremos por organizações não-governamentais - foi aprovado ontem, na plenária final da conferência, sem qualquer comentário por parte dos delegados presentes.

Num mundo vitimado pela crise econômica, os 114 líderes reunidos no Riocentro contentaram-se em repetir as promessas feitas em 1992 e adiar de novo ações que a ciência aponta como urgentes. O documento, diante da falta de perspectiva de consenso em temas como financiamento, acabou desidratado pelo país anfitrião.

Resposta
Em resposta às críticas de alguns dirigentes europeus e de Organizações Não-Governamentais ao documento final acordado entre os países participantes, a presidente Dilma Rousseff, que encerrou a conferência ontem à noite, disse que a Rio+20 é "um ponto de partida e não ponto de chegada". Para ela, o documento foi o possível, mas "é óbvio que não atende" à prática brasileira.

O texto fixa o ano de 2015 como nova data mágica da sustentabilidade global. É quando deverão entrar em vigor os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ideia lançada no Rio e que deverá ganhar definições de temas e metas a partir de 2013.

Os objetivos são o principal processo internacional lançado pela Rio+20, que também prometeu adotar um programa de dez anos para rever os padrões de produção e consumo da humanidade. Outras decisões esperadas, como um mecanismo de financiamento ao desenvolvimento sustentável e um acordo sobre a proteção do alto-mar, ficaram para depois.

Dilma avisou que o Brasil quer e vai trabalhar pela criação do fundo para a sustentabilidade. Disse ainda que o País não aceita ser responsabilizado por dirigentes europeus que não assinaram a criação do fundo, mas criticaram o documento. "Se você quer uma imagem, é como trocar as cadeiras de lugar no Titanic", disse Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace, fazendo um balanço da reunião no Brasil.

O secretário-geral da conferência, Sha Zukang, afirmou que parte do legado da Rio+20 são compromissos voluntários firmados entre setor privado, governos e sociedade civil. Segundo ele, foram registrados 692 acordos, que irão direcionar R$ 1,6 trilhão ao desenvolvimento sustentável em dez anos. A maior parte dos recursos virá de oito bancos de desenvolvimento, que se comprometeram a destinar R$ 350 bilhões a projetos sustentáveis de transporte na Ásia, América Latina e África. "Embora não pareça tão espetacular como o de 92, o resultado hoje talvez seja mais sério, porque nem tudo que foi acordado em 92 foi implementado", disse o coordenador-executivo da Rio+20, Brice Lalonde.

Movimentos sociais veem retrocesso da Rio+20
Rio de Janeiro. A declaração final da Cúpula dos Povos, apresentada ontem pelos movimentos sociais e ambientais que compõem o evento paralelo à Rio+20, faz duras críticas ao documento elaborado pelos governos na conferência mundial. De acordo com os manifestantes, o evento mostrou um retrocesso em relação à Eco-92. "Há vinte anos, o Fórum Global denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos", afirma o documento da Cúpula. "A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmo atores que provocaram a crise global".

Frustrados com os resultados do evento, os manifestantes intensificaram os protestos pelas ruas do Rio nos últimos dias. Com a ausência de importantes chefes de Estado, os representantes de movimentos populares criticaram o modo como foi elaborado o texto final.

Satisfeitos
Mesmo assim, os organizadores comemoraram o balanço do evento paralelo. "Estamos satisfeitos, pois cumprimos nosso papel de fazer um contraponto. Nossa previsão era de que não haveria avanço e isso se confirmou na reunião com o secretário-geral da ONU (Ban Ki-moon). "Ele respondeu de forma genérica e pouco contundente, dizendo que o documento da Rio+20 deveria ser considerado um primeiro passo", afirma Darci Franco, um dos responsáveis pela organização da Cúpula dos Povos.

Fórum é um dos avanços, diz ministra
A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse ontem que a criação de um fórum de alto nível sobre desenvolvimento sustentável na Organização das Nações Unidas (ONU) gera a expectativa de que o tema será tratado com maior relevância e comprometimento.

Atualmente, o tema é discutido na Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU, criada a partir de uma demanda da Rio92. Nos últimos dias, representantes de vários países questionaram os legados do encontro, que ocorreu há vinte anos, apontando inclusive os baixos resultados alcançados por esse órgão. A decisão da Rio+20 é a de que o debate sobre desenvolvimento sustentável seja empoderado, passando a ser discutido por altas esferas dos governos.

"A comissão se revelou insuficiente para a coordenação do desenvolvimento sustentável. Esperamos que o fórum de alto nível seja responsável pela avaliação e implementação dessas metas, mas também traga o debate para a centralidade da geopolítica internacional e do multilateralismo", disse a ministra.

Izabella Teixeira lembrou que a Rio+20 foi realizada em um cenário de multilateralismo, no qual os países assumiram compromissos novos e comuns. "É difícil construir consensos. O processo é complexo, porque precisamos falar e aprender a ouvir. O consenso alcançado na Rio+20 é global, mas não quer dizer que cada país não possa fazer mais do que o colocado aqui", disse a titular da Pasta do meio Ambiente.

Desafiada
Na noite de quinta-feira, a ministra Izabella Teixeira bateu boca com integrantes de ONGs ambientais ao defender com vigor os avanços no combate ao desmatamento. Lideranças e personalidades lançaram o texto "O Futuro que Não Queremos", uma resposta oficial ao documento da Rio+20.
(Diário do Nordeste)

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